Em Cuzco : Plaza das Armas

27 10 2007

Ciente que as dores de cabeça mais cedo ou mais tarde passariam, ou pela overdose de chás de coca ou pela de Dorflex, comecei a relaxar e me encantar mais com a cidade. Acordei no dia seguinte muito cedo, peguei o equipamento e saí sedento por fotos.


Cuzco realmente faz juz a toda sua fama e mística de capital, seja do império inca, ou
“Capital Arqueológica da América”. É um museu a céu aberto. Partindo do príncípio que você ficará nos arredores da Plaza das Armas, tudo a sua volta é histórico. Muitas igrejas, muitos casarios coloniais com suas fachadas e varandas talhadas, muita arquitetura contrastante ( incas x espanhóis ), o chafariz central, assim como a Praça que ele se localiza é um caso a parte. Vale sentar-se ali durante algumas horas e ver o tempo passar.


Fiquem espertos porque o frio pega mesmo. Apesar de ao sol, fazer um calorzinho bacana, basta cair a noite para esfriar bastante. Se vais ficar da transição da tarde para noite na rua, leve casaco. Eu dei uma de machão e fiquei para fazer essa foto do chafariz e quase virei picolé.

E por falar em sentar na praça, o único real-onipresente incoveniente em Cuzco são os vendedores ambulantes. Uma espécie de flanelinhas das praças. Se você parar para ver as horas, para respirar, para amarrar o sapato, coçar a orelha, para tirar meleca, para qualquer coisa, já era: terá um vendedor ao seu lado educadamente, porém muito insistentemente, te convencendo a comprar os produtos dele. Pintura, porta-trecos, passeios, postais, roupa, casaco, tocas, luvas… Os mais cativantes são as crianças que vendem “toca para dedo”. Elas sabem detalhes de vários países para se aproximar dos turístas. Nome do presidente, moeda, capital e meia dúzia de particularidades. Pronto. Foi o suficiente para você baixar a guarda e terás que ver a “toca de dedo” do inca, da lhama, do espanhol – prepare-se que o melhor vem agora – do chapeuzinho vermelho, do coelinho da páscoa, do chaves, do chapolim, da branca de neve, da cinderela e até do Sherek. Consegui parar a tempo de algum deles tirar o Pelé ou Ronaldinho e acabar me convencendo, em prol da criatividade, a comprar. Como no parasol de uma lente minha havia uma bandeira do Brasil, elas chegavam perguntando se eu era do Brasil. Ao responder que sim, elas falavam que eu era do “país do presidente Lula que só tinha quatro dedos em uma das mãos, cuja capital era brasília e a moeda era o real” ( entre aspas pq a frase não é minha…rs). E eu adoro criança. Não conseguiria interromper tamanha demonstração de jogo de cintura e criatividade. Depois da quinta ou sexta criança, para encurtar a negociação de paz, quando ela me perguntava de que país eu era, já respondia que era do país cujo presidente era o Lula, que só tinha quatro dedos em uma das mãos, cuja capital era Brasília e a moeda era o real…rs. Decepção e desarme total para eles. Triste mas necessário. Portanto prepare-se para falar muitas “gracias, no, gracias”. Cheguei ao ponto de, depois de quase duas horas sentado esperando a melhor luz para fazer uma foto ( essa acima, do chafariz ), não aguentar e pedir por favor para eles me deixarem ficar quieto curtindo a praça só um pouquinho… sem precisar não querer comprar nada. Acho que eu pedi com tanto carinho que até o policial que estava perto começou a me ajudar. Não vale se estressar até pq você é turísta. Para eles, estamos ali para comprar. Não adianta que não sejamos europeus ou americanos. Que sejamos “hermanos”. Isso não cola. Para eles, você continua sendo uma fonte de renda ambulante e necessária. Apenas seja educado e prepare o espírito.

Foi na praça que eu comecei a traçar uns paralelos com a nossa situação, particularmente do Rio de Janeiro, minha realidade mais próxima. Cuzco, aos meus olhos, me pareceu uma cidade extremamente civilizada. Policiada, sem avanço de sinais, sem lixo no chão ( Básico e assustador: eu não consigo pensar em nenhum local público no Rio de Janeiro sem lixo no chão ), com um povo extremamente educado ( sim, os ambulantes eram chatos mas sempre davam bom dia, tarde, noite, agradeciam, davam informações. A mesma coisa para o taxista que irá tentar educadamente te enrolar com o preço do corrida). A Plaza das Armas é tão limpa, tão limpa que mesmo um mal educado ficaria constrangido de jogar algo no chão. Sempre no meu campo de visão ou tinha um guarda municipal, ou um guarda de trânsito pitbull nervoso com sue apito ou um policial militar, ou os três. Pensei em quantas vezes eu sai para fotografar em postos turísticos do Rio e fiquei cabreiro por não ter policiamento. Em quantas vezes eu aproveitei um evento especial ( uma reunião de cúpula no Copacabana Palace, por exemplo ) para aproveitar o ocasional policiamento reforçado para sair para fazer fotos. Ainda temos muito que caminhar!

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Mais imagens em www.flavioveloso.com.br

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2 respostas

25 09 2009
Ana Cris

Valeu a pena ter paciência com as crianças e esperar a luz ideal. A foto da praça ficou linda.
Parabéns!

28 09 2009
flavioveloso

Obrigado Ana Cris. Foi uma das poucas fotos que eu fiz em baixa velocidade na viagem e uso muito ela em sala de aula. Falando um pouco de transpiração (e não “só” inspiração para fazer fotos), de baixas velocidades, de ter mesmo que não o melhor, pelo menos um paleativo de equipamento certo ( usava um tripézinho vagabundinho por não ter condições de levar o meu -peso) e de esperar a luz certa. Que bom que vc gostou!

um abraço

Flavio Veloso
http://www.photoestrada.com

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